Shruikan acordou pela manhã, desta vez não banhado pelo caloroso Sol matinal, mas sim pelas espessas nuvens que pairavam sobre ele, como que anunciando uma iminente tempestade.

Fazendo-se ao caminho, tratou primeiramente de subir a agreste colina que tinha diante de si. Não era propriamente íngreme, mas, ainda assim, não deixou de se mostrar uma tarefa um tanto ou quanto cansativa.

No seu topo, deparou-se com uma paisagem peculiar. Todo o espaço circundante era absolutamente negro, a terra, as rochas, as árvores escassas e há muito mortas; como se o maior de todos os incêndios tivesse consumido todo aquele lugar. E no fundo, no meio de dois vulcões que não mostravam quaisquer sinais de vida, estava o Forte de Kainus.

Seguiu-se uma caminhada de duas horas, percorrida num silêncio apenas interrompido pelo palrar dos vários corvos que por ali andavam, a única forma de vida animal à vista.

Chegado ao Forte, àquela colossal estrutura de aparente rocha vulcânica parcialmente fundida com os dois vulcões que a ladeavam, Shruikan não só se apercebeu que a única entrada à vista estava aberta, como o Forte parecia estar vazio, ou até mesmo abandonado.

Entrando, deparou-se com um generoso átrio desprovido de vida, apenas com uma série de mesas vazias e vários conjuntos de alvos e bonecos de treino, todos visivelmente gastos pelo tempo e pelo uso.

Recordando-se dos sonhos que teve recentemente, concentrou-se, focando-se naquele pulsar que chamava por ele naquele mesmo lugar. Teve uma resposta. Um leve sinal vindo do andar de baixo. Rapidamente descobriu umas escadas em caracol que iam nessa mesma direcção.

Assim que chegou ao seu fundo, surgiu diante dele alguma forma de antecâmara, adornada com várias velas que timidamente aclaravam o espaço, e alguns conjuntos de armaduras simples decoradas com mantos de penas negras. Após as inspeccionar, viu que estavam claramente vazias, e no centro de duas delas, uma única porta.

Para além dela, um templo enorme, suportado por uma série de pilares, com trinta filas de longos bancos divididos em três grupos, e à frente, em cima de três degraus, estava um altar coberto de luto, diante de um vitral em tons de roxo e cinza onde uma figura feminina coberta de negro contemplava Shruikan através da sua face branca como a neve.

Shruikan aproximou-se e sentou-se na fila da frente, aguardando que algo acontecesse.

Um pequeno corvo acabou por aparecer por de trás do altar. Shruikan atirou-lhe algumas migalhas e ele aproximou-se, até que voou em direcção ao seu colo e ali ficou, olhando-o fixamente. Havia algo de estranho naquele olhar, e de um momento para o outro, o corvo desapareceu.

Todo o espaço se mantinha igual, à excepção da figura de uma mulher em tudo idêntica à retratada no vitral que entretanto surgiu diante do mesmo. Ela aproximou-se com aquele mesmo corvo no ombro.

Confrontando-a sobre a sua natureza, Shruikan descobriu que se tratava verdadeiramente da Rainha dos Corvos.

Uma longa conversa teve então lugar, onde Shruikan foi confrontado cobre as suas verdadeiras intenções. Se queria realmente destruir o mundo e construí-lo à sua imagem, ou se tudo não passava de um elaborado plano para ele morrer e se juntar aos que mais amava; se acreditava realmente naquilo que defendia ou se era tudo uma mentira que ele contava a ele próprio na esperança de que um dia se tornasse verdade. Foi-lhe falado em Lia e Salazar, os seus pais, e Elizabeth, o seu grande amor, e aquilo que eles sentiram por ele desde o início. O que sentiriam agora depois de tudo que ele tem feito? Por causa da sua demanda por poder, foram-lhe mostradas as vidas de tantos outros que procuraram obtê-lo da mesma maneira que ele. Homens e mulheres de família, com sonhos e ambições, que perderam todo por causa da Mão e do Olho. Shruikan contrapôs, dizendo que a Mão só o conseguiu controlar uma única vez e que ele iria conseguir superar estes artefactos. Já muito depois de ela ter revelado a sua verdadeira forma, a de uma jovem rapariga, de tez pálida e de longos cabelos pretos em contraste com um simples vestido branco, a Rinha dos Corvos abraçou-o, deixando claro que acreditava que ainda havia algo de bom nele e que estava confiante de que ele iria fazer a escolha certa. O corvo palrou nesse preciso momento, e ambos desapareceram.

Shruikan continuava no mesmo templo, só, e com muito em que pensar.

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Categories Tales of Dosluvi
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