No centro do templo, Shruikan deu por si a contemplar tudo aquilo que lhe tinha sido dito pela Rainha dos Corvos, e no seu longo momento de reflexão, disse em voz alta, sabendo que ela o ouviria, que ela lhe tinha expandido os horizontes e aberto os seus olhos. A partir daquele momento, ele iria ser movido por justiça e não por destruição. Contudo, para que ele pudesse realmente ter um impacto e mudar o rumo da História, iria precisar do Olho de Vecna. Sem qualquer resposta à vista, e procurando provar que estava determinado, ali ficou, à espera que algo acontecesse.

Segundos tornaram-se minutos e minutos tornaram-se horas. Nada parecia mudar no templo, e Shruikan deu por si a adormecer. Acordando, sem saber quanto tempo tinha passado ao certo, tudo parecia estar como sempre esteve.

Levantando-se, avançou até ao vitral e examinou-o. Para além da estranheza do facto de ele ser iluminado sem uma fonte de luz aparente, tudo parecia normal. Um novo apelo foi feito, e tal como o anterior, se houve resposta, Shruikan não a ouviu. Focando-se no chão, passou a examiná-lo. Era de pedra maciça e fria ao toque, seguindo um padrão sólido de encaixe, à excepção de uma que se encontrava debaixo do altar coberto por um longo manto preto. Pisando-a, ela cedeu ao seu peso, e seguindo o ruído que se fez sentir atrás dele, era possível ver que uma das peças centrais do vitral se abrira, revelando um pequeno e escuro corredor com uma simples porta ao fundo.

Avançando com cautela e estudando o corredor com atenção, Shruikan pôde concluir que nada estava errado. Chegando à porta e tocando na sua maçaneta de aço fria, abriu-a sem qualquer resistência, mostrando uma sala circular cercada por um mural simples e de uma beleza sinistra onde corvos e as suas penas cresciam na direcção de umas asas maiores que se uniam ao fundo, onde uma colossal figura de aço se encontrava abraçada pelas suas próprias asas.

Descendo os degraus que tinha diante de si e parando diante da gravura parcialmente gasta no chão de um brasão com a cabeça de um corvo a contemplar o seu lado esquerdo, Shruikan ajoelhou-se e professou novamente a sua nova perspectiva, as suas intenções, acrescentando que ela precisaria de confiar nele. Uma vez mais, restava apenas silêncio.

Examinando o espaço, apercebeu-se de dois relevos em formato de asas por detrás da estátua, e alguma forma de dobradiças nas costas da mesma. Agarrou-se às asas e apesar de todas as suas forças, não as conseguiu mover. Recuando, apercebeu-se de algo estranho na gravura do brasão. Era perceptível uma considerável camada de pó na imagem da cabeça do corvo. Tocando-lhe, apercebeu-se que realmente poderia ser movida, mas não rodando sobre ela mesma. Saltando sobre ela, reparou que o seu lado esquerdo afundava parcialmente. Forçando a gravura nesse sentido, ela cedeu, rodando para fora, exibindo uma figura em três dimensões da cabeça de um corvo, um que agora olhava para ele.

Com isto, um sistema de correntes e de engrenagens fez-se ouvir vindo do interior das paredes e a estátua à sua frente mostrou sinais de vida, abrindo as suas asas e mostrando um pequeno altar com uma caixa repleta de gravuras no seu topo e um pequeno corvo por cima dela. O corvo saltou da caixa para o chão e palrou na direcção de Shruikan. Ele, por sua vez, aproximou-se lentamente, e por cada passo que ele dava, o corvo dava um também, até que passou por alguma forma de parede transparente que aparentemente estava a cercar o altar e assim que o fez, o seu palrar começo ficar cada vez mais distorcido e a sua forma começou a mudar. As penas deram lugar a um longo manto negro, as patas a pernas, as asas a braços e a cabeça a um capacete onde dois olhos escarlates penetravam Shruikan do seu interior. Uma figura de armadura enegrecida com o símbolo da Rainha dos Corvos gravado no seu peito surgiu, e levantando a sua mão direita na direcção de Shruikan, disse-lhe para abandonar aquele local, acrescentando que ainda não tinha chegado a sua hora.

Recuando, Shruikan fez um novo apelo à Rainha dos Corvos, obtendo os mesmos resultados aos quais já estava habituado, tudo enquanto a figura repetia não só as mesmas palavras como também a mensagem da Rainha dos Corvos de que este não era o caminho. Pedindo desculpa, defendendo uma vez mais que aquilo era um meio necessário para atingir um fim, Shruikan lançou um feitiço de Slow à figura, surtindo efeito. Correndo o mais que podia, avançou em direcção à caixa. Contudo, assim que entrou em contacto com aquela parede parcialmente invisível, a sua mente pareceu implodir e viu-se incapaz de se mover. Felizmente para Shruikan, a sua vontade era demasiado forte para o efeito durar demasiado… e o mesmo se podia dizer da figura que agora não só se tinha aproximado dele, como também se tinha apoderado da caixa.

Segurando a caixa com as suas duas mãos, Shruikan consegui tirá-la e correu na direcção oposta, passando pelo mesmo sítio onde há momentos tinha ficado imóvel, mas, desta vez, em vez daquela terrível sensação de que a sua mente tinha sido obliterada, imagens de dor e agonia assolaram-na, e o terror paralisou-o parcialmente. Apesar de tudo, a vontade continuava a ser sua, e tratou de preparar o seu feitiço de teletransportação, o que, apesar da onda de força e de energia necrótica que a figura enviou na sua direcção, conseguiu ganhar forma.

Desmaterializando-se e pensando no templo de Navina Sina, Shruikan apareceu diante do mesmo, sendo recebido por uma estranha visão. A maior parte da massa de mortos-vivos que povoava as imediações encontrava-se devastada um pouco por toda a entrada do templo, templo esse por onde eram perceptíveis luzes de energia arcana, sons de explosões e um grito que claramente pertencia à própria Navina.

Ofegante e ferido, Shruikan podia apenas imaginar o que ali se estaria a passar.

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Categories Tales of Dosluvi
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