Cercado por escuridão era como Shruikan se sentia. Nada mais havia a não ser o eco das profundezas da sua mente. Ocasionalmente sentia a sua consciência a voltar, o que lhe mostrava o interior do templo, uma visão clara do seu tecto parcialmente colapsado e também do leve manto de partículas arcanas esverdeadas que parecia cobri-lo. O seu ritmo cardíaco nunca esteve tão lento.

Sentia um frio familiar vindo da superfície onde estava deitado, aquele estranho altar onde tudo lhe tinha sido revelado sobre Vecna. Tentou libertar-se, mas assim que se esforçou nesse sentido, sentiu a sua consciência a perder-se e a escuridão a voltar. Nela ele sentia liberdade, de movimento e de pensamento, da mesma maneira que sentia algo que lentamente parecia ocupar esse mesmo espaço. Concentrando-se, procurou juntar todas as suas memórias num único ponto. O resultado, uma pequena esfera de uma radiante luz branca. Colocando-a num bolso, despertou uma vez mais.

Era-lhe possível ver a figura de Navina Sina a sorrir na sua direcção ao mesmo tempo que desenhava uma série de runas no ar. Subitamente, notou uma mudança no seu semblante. Contornando-o pela esquerda, observou a parede que tinha diante de si, como se conseguisse ver através dela, claramente preocupada com algo. Apontando na direcção da entrada principal, devolveu a vida aos mortos-vivos que lá estavam e que rapidamente se perderam algures no exterior.

Navina olhou uma vez mais para Shruikan e assim que o fez, a parede que observava explodiu, deixando entrar um goliath de espada em punho e exibindo o símbolo de Bahamut na sua reluzente armadura. Outros homens seguiam atrás dele, sendo um deles Ander.

O goliath chegou a dar a provar o sangue de Navina à sua espada, e antes que esta pudesse fazer algo, deu por si a ser incapaz de se mover. Ander aproximou-se dela e pediu ao goliath que lhe estendesse algo, ao que ele anuiu com um par de luvas que eram um tanto ou quanto familiares a Shruikan. Assim que foram colocadas, libertaram um leve brilho azul-celeste e Navina não tardou a recuperar a sua postura. Foi informada de que iria ser levada para Silverkeep, interrogada e julgada. Perante tal afirmação, ela limitou-se a aceitar com um sorriso provocador.

Enquanto Navina era escoltada para fora pelo goliath, Ander e outros dois clérigos aproximaram-se do altar onde Shruikan estava deitado e procederam a libertá-lo do encantamento que o prendia. Posto isto, confrontaram Shruikan com uma das sentenças que lhe tinha sido previamente proferidas, e com o consentimento dele, o encantamento foi replicado e, nesse mesmo momento, deixou de ver do olho direito e de sentir a sua mão esquerda. Rapidamente foi induzido num sono profundo para que os mesmos fossem retirados sem qualquer tipo de dor.

De volta às profundezas da sua inconsciência, apercebeu-se de um brilho que vinha do bolso onde depositara a esfera que tinha as suas memórias, e assim que a tomou, deu por si a ser visitado por Asmodeus, que o inquiriu sobre o passo seguinte face à sua situação actual. Shruikan simplesmente respondeu que estar a ser vigiado de perto pela Ordem de Bahamut poderia vir a ser uma mais-valia. Nesse instante, três figuras surgiram das memórias, Salazar, seu pai; Lia, sua mãe e Elizabeth o seu amor. Os três disseram-lhe que esta vida não era o que queriam para ele, que apesar da natureza injusta do mundo, há outras formas de ser parte da solução. A conversa escalou até que Elizabeth confrontou Asmodeus sobre o seu envolvimento na sua morte e posterior conversão de Shruikan. Assim que Shruikan o questionou sobre isso mesmo, Asmodeus simplesmente disse que caos e a vontade de o espalhar pelo mundo eram aspectos que já existiam nele, pelo que se limitou a apontar-lhe a direcção certa. Sentindo parte da sua vida e do seu propósito a colapsar sobre ele, e movido por Asmodeus, Shruikan viu-se obrigado a tomar uma escolha.

Falando com os seus pais e com Elizabeth, ele reconheceu que não agiu da maneira mais correcta. Contudo, tal seria necessário e no fim tudo faria sentido. Assim, observou enquanto os seus rostos preocupados eram consumidos pelas chamas de Asmodeus, que estavam particularmente satisfeito com a escolha tomada e que declarou que iria entrar em contacto em breve. Sentindo-se a ser empurrado para a consciência, Shruikan não conseguiu deixar de se aperceber do familiar brilho vindo do seu bolso.

Acordando, estava dorido e exausto. Os artefactos tinham sido removidos em segurança e ele estava devidamente ligado. Olhando em volta para o pequeno tumulto de homens e mulheres da Ordem a entrar e a sair, disseram-lhe que iam precisar de algum tempo para estudar tudo aquilo que o templo escondia e quem era realmente Navina. Quanto a Shruikan, ele também seria levado para Silverkeep, onde seria devidamente acompanhado, vigiado e tratado, podendo, caso o quisesse, testemunhar contra Navina no seu julgamento.

Aceitando, foi guiado para fora do templo até uma carruagem que o aguardava. Entrando nela, juntamente com Ander, seguiu caminho até ao próximo passo da sua aventura.

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Categories Tales of Dosluvi
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