Desta vez o destino de Shruikan era tudo menos incerto. Ander disse-lhe que iam para Silverkeep, onde os julgamentos iriam ser presididos. Iam somente fazer uma paragem em Yellowseed para passarem o resto da noite.

Durante a viagem, Shruikan inquiriu-o sob o porquê de não o terem executado, uma vez que não se tinham despedido nos melhores termos. Ander respondeu que havia suspeitas de que ele era vítima de um plano maior que ele, e, apesar das suas acções, era uma vítima de qualquer das formas. As suspeitas vieram a confirmar-se na forma do antigo companheiro de viagem de Shruikan, Dominic Duram, cujo interrogatório mostrou ter o se quê de frustrante, uma vez que ele só respondia às perguntas certas. Shruikan não pôde deixar de acreditar na veracidade daquele argumento.

Chegados a Yellowseed, ficou claro para Shruikan que a carroça deles foi a única que optou por aquela mesma paragem. Antes de sair, perguntou a Ander se seria possível ter uma conversa a sós com Dreis. Ele anuiu, dizendo que lhe tinha sido arranjado um quarto numa estalagem onde ele já tinha pernoitado, e onde um guarda ficaria de vigia.

Saindo da carroça, depararam-se com Dreis, que os esperava, com um sorriso quase paternal e um ar sereno. Cumprimentos foram trocados e após a autorização de Ander e o consentimento de Dreis, este e Shruikan subiram, passando pela entrada da estalagem que mergulhou num colossal silêncio e onde o rapaz do balcão ficou petrificado após os ver entrar. No corredor dos quartos, um guarda esperava por eles e abriu-lhes a porta.

Os dois conversaram. Shruikan pediu-lhe conselhos sobre como proceder, uma vez que ele se sentia mais perdido do que nunca. A sua razão para lutar mostrou-se a origem de todo o mal na sua vida. Perante isto, Dreis pediu-lhe para olhar para o seu coração, confortando-o de que lá teria as suas respostas. Fechando os olhos e concentrando-se, deparou-se com o calor das suas memórias, e com a paz que tal lhe trazia. Começar de novo é sempre uma possibilidade. Shruikan pediu-lhe desculpa por tudo o que lhe tinha feito, ao que Dreis lhe disse que não tinha nada de que se desculpar, porque estava tudo onde tinha que estar: no passado. Os dois despediram-se, com Shruikan a agradecer e com Dreis a assegurar-lhe de que se veriam em breve. Sozinho no quarto, Shruikan descansou, e todo ele estava demasiado exausto para ser perturbado.

De manhã, foi levado por Ander até ao andar de baixo para tomar o pequeno-almoço com alguma brevidade, mas não demasiada ao ponto de impedir que uma pequena partida fosse feita ao rapaz que geria o estabelecimento, deixando-o temporariamente desmaiado. Seguiram-se dois dias de viagem até Silverkeep.

Sem quaisquer tribulações, chegaram ao fim do segundo dia, e Shruikan notou que tinham a atenção da população, que os seguiu até ao exterior do templo de Bahamut. No seu interior, Shruikan foi levado para o que se mostraram ser celas com melhores condições. Foi-lhe dito para descansar e que de manhã iria ser informado sobre o que se iria passar.

No interior do quarto mal iluminado, Shruikan pediu concelhos a Asmodeus, recebendo imediatamente uma resposta na forma de algo a tocar-lhe nas costas e com alguém a dizer-lhe para não fazer movimentos bruscos. Tudo lhe cheirava a Dominic, e confrontando-o, era ele mesmo que ali estava. Puseram a conversa em dia, tanto sobre o julgamento que mostrava ser um pouco mais benévolo que o anterior, quanto a possibilidade de a guilda dos ladrões ter a cabeça de Shruikan a prémio, e a passagem de uma mensagem de uma certa cozinheira a Dominic na forma de um estalo.

No dia seguinte, Ander reuniu-se com eles, apresentando a ordem dos vários julgamentos que iriam ter lugar, e que teriam início com o de Navina, aproveitando também para perguntar se estariam interessados em testemunhar. Os dois consentiram e preencheram os documentos necessários nesse sentido.

Aguardaram, e às duas da tarde foram escoltados para a sala principal do tribunal, no topo da escadaria que contornava a enorme estátua de um dragão prateado. Olhando em volta, estava claro que grande parte dos habitantes de Silverkeep, apesar do seu estatuto social, estava presente.

Ander, juntamente com os mesmos juízes que presidiram o primeiro julgamento de Shruikan, abriu a sessão, e apresentando o ali os trazia, recorrendo aos respectivos factos e acusações, pediu que Navina fosse trazida ao tribunal. Abrindo alas, ela foi escoltada pelo mesmo paladino que quase executara Shruikan. Pararam diante dos juízes. Toda ela respirava tranquilidade, como se estivesse a adorar a atenção que lhe estava a ser dada.

Não tardou a aceitar os crimes que lhe foram imputados e antes de a sentença de execução imediata ser aplicada, Shruikan e Dominic foram chamados a testemunhar. Eles assim o fizeram, com Shruikan a relatar todo o seu percurso, desde o seu início até àquele preciso momento. Sem sombra de dúvidas, a sentença foi decretada, e sob o flash de luz que abraçou a espada que o carrasco segurava, a cabeça de Navina rolou pelo chão, com um sorriso claro e sem antes dizer que iria voltar.

Seguiu-se a vez de Shruikan e Dominic serem julgados. Ao último, por causa da cumplicidade para com Shruikan e pelos seus antecedentes como membro de uma associação criminosa, foram-lhe decretados sete anos de prisão efectiva. Incrédulo, olhou para Shruikan, que pediu aos juízes um curto intervalo, pois tinha algo importante para lhes revelar.

O intervalo foi aceite com alguma relutância. Os dois, juntamente com os juízes reuniram-se. Shruikan falou-lhes então de um terceiro membro com o qual tinha trabalhado, Amadeus Sinus, através do qual conheceu Navina. Falou-lhes do primeiro trabalho que desempenhou para ele, a recuperação de uma estranha esfera que descobriu estar a ser utilizada para trazer Alandhur a este mundo.

O nome não dizia nada aos juízes, mas pediram-lhes tempo para discutirem entre eles. Assim o fizeram, e no fim do intervalo retomaram o julgamento. Perante esses mesmos factos, viram-se como que forçados a mudar as molduras penais, passando a penas suspensas que se manteriam enquanto ambos compactuassem com as forças locais com o intuito de preservar a segurança de tudo e de todos. O consenso foi unânime e a sessão foi encerrada sob a sensação de que justiça tinha sido feita.

A pedido de Ander voltaram e reunir-se para falarem melhor. Assim que se viram na mesma sala, Shruikan sentiu-se a perder os sentidos. Asmodeus visitou-o mais uma vez, curioso em saber o que faria a seguir.

Um novo capítulo começava agora.

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Categories Tales of Dosluvi
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