Shruikan aceitou a sua nova companhia, embora cauteloso quanto à sua presença e às suas intenções. Isovae era o seu nome, e perante a forma críptica e enigmática como falava, parecia que sabia mais sobre ele, as suas intenções, onde ia e porquê.

Com o crescer da noite, Shruikan deitou-se, sem antes estudar o comportamento da sua nova potencial aliada, e observou-a traçar um perímetro no acampamento. Ao vê-la a retomar o seu lugar na lareira e sem nada fazer, deitou-se e esperou que a sua consciência fosse levada.

Deu por si no meio de uma escuridão familiar, e viu um turbilhão de chamas a formarem-se à sua volta, mas sem se conseguir aproximar, como se uma cúpula de vidro bloqueasse a passagem. Um crânio diabólico em chamas surgiu, procurando colapsar esta barreira, mas tal só fez com que ela se iluminasse num brilho arroxeado e cobrisse todo o espaço, levando a que Shruikan acordasse.

Reuniu-se com Isovae que pareceu satisfeita com o seu descanso, e depois de uma breve e enigmática conversa, os dois seguiram para Shivar. Lá trataram de marcar viagem para o dia seguinte, visto que a turbulência das águas perante a aparente iminente tempestade não permitia que a única embarcação responsável pela ligação com Sureixia cumprisse o seu horário.

Perante a espera certa, trataram de se precaver com algumas provisões e um quarto para passar a noite. Frente a frente em camas diferentes, Shruikan tomou um dos livros que retirara da cada de Amadeus e começou a lê-lo. Procurava respostas sobre diabos, as suas fraquezas e como chegar até eles, mas a premissa do próprio livro de evitar quaisquer encontros desta natureza tornou praticamente impossível satisfazer estas questões. Isovae mostrou-se curiosa com o tema, e não conseguiu de mostrar à sua maneira que sabia mais do que aparentava. Para além disto, Shruikan apercebeu-se que, assim que ela tirou as suas luvas e o seu corvo pousou nas suas mãos, Isovae tinha os dedos cobertos de queimaduras há muito saradas e estranhas marcas pareciam desaparecer pelas suas mangas. Isovae garantiu que tudo estava bem.

A noite chegou e Shruikan adormeceu, apenas para ser coberto pela espiral de chamas e questionado pelo rosto flamejante de Asmodeus sobre o que estava a pensar fazer. Aqui Shruikan declarou as suas intenções de fazer Asmodeus pagar pelo que fez à sua amada e por o ter enganado todo este tempo. Divertido com a ideia de mais um mortal o desafiar, Asmodeus aceitou, e desaparecendo apenas quando um foco de luz de um preto arroxeado surgiu na sua face e o fez desvanecer.

Shruikan acordou com suores frios, mas com um toque quente na testa. Isovae tinha-o acordado, e reconfortou-o dizendo que Asmodeus não o iria incomodar mais. Arregaçando as mangas, permitiu a Shruikan ver uma série de símbolos e de runas queimados nos seus braços, todos eles em várias línguas e alusivas a vários deuses, sob os mesmos ideais de vigília, guarda e protecção. Reproduziu um encantamento nos quatro cantos da cama de Shruikan e garantiu que podia descansar. Com isto, voltou à sua cama na companhia do seu corvo, que por momentos observou Shruikan atentamente.

Shruikan adormeceu, e apesar de sentir o calor das chamas, o brilho da aura que tinha no bolso dizia-lhe algo bem mais importante: ele estava no caminho certo.

Published
Categories Tales of Dosluvi
Views 57